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18/05/2021
Psicologia & inovações tecnológicas: um campo a ser explorado

Por: Lisiane Dias e Marcelo Barbosa

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Atendimentos online são apenas uma fração das oportunidades que a inovação pode oferecer ao mercado

A prática da psicologia não passou ilesa às adaptações a que o mundo foi obrigado a realizar em virtude da pandemia do coronavírus. Com a necessidade de isolamento e de distanciamento social, a relação entre psicólogos, pacientes ou clientes teve de ser obrigatoriamente revista e passou a ser fortemente ancorada nas novas tecnologias.

Mais de um ano após o início das restrições, a avaliação desta experiência traz conclusões que devem ser analisadas com atenção tanto pelos profissionais que já estão no mercado quanto pelos futuros psicólogos.

A primeira delas é a constatação de que, embora seja uma área considerada resistente a mudanças, a psicologia apresenta-se como um campo fértil e de amplo espaço de crescimento na adesão ao universo digital, especialmente na atuação clínica. Sem que ocasione perdas à interação e ao contato humanizado inerentes à profissão, o uso da tecnologia pode oferecer ferramentas muito valiosas e que podem enriquecer as práticas profissionais. E ainda, oferecendo recursos que podem ir muito além das sessões online. 

A segunda conclusão é a de que, com esta nova realidade, o mercado vai demandar cada vez mais profissionais inseridos no mundo tecnológico, abertos à inovação e com perfil empreendedor. 

E você, se sente preparado para esta nova realidade?

 

Conexão psicologia & tecnologia

Apesar de a pandemia ter ressaltado a relevância da tecnologia no atendimento psicológico, a relação entre elas não chega a ser novidade. A aplicação de recursos digitais que vão além da comunicação entre psicólogo e paciente é anterior.

“Como toda a ciência, a psicologia está conectada e muito próxima de todo o desenvolvimento tecnológico, não apenas no uso dos recursos, mas também como ferramenta de reflexão sobre a relação do homem com a tecnologia”, explica Júlia Protas, coordenadora do curso de Psicologia da IMED em Porto Alegre.

 

Júlia Protas, coordenadora do curso de Psicologia da IMED em Porto Alegre

 

Na prática, porém, esta conexão não ocorre de forma natural. A inserção de ferramentas tecnológicas no dia a dia da profissão tem sido mais lenta do que em outras áreas do conhecimento em geral. 

Há somente três anos, por exemplo, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), por meio da resolução 11/2018, flexibilizou o uso de ferramentas de tecnologia da informação nos serviços da área. A norma anterior que regulava a atividade impunha restrições com um limite maior no número de sessões à distância e exigência de registro prévio dos psicólogos para realizar este atendimento no Cadastro Nacional de Profissionais para Prestação de Serviços Psicológicos por meio de TICS, o e-Psi. 

Para Júlia, o ritmo lento de adesão às inovações se deve, em grande parte, a falta de visão do mercado quanto às possibilidades que a tecnologia pode agregar à área. Segundo a profissional, há um certo temor de que ocorra a “robotização” dos atendimentos e serviços a partir do uso de ferramentas digitais.

“A psicologia trabalha com o humano, valoriza o vínculo. A ideia de robotizar sempre vai ser vista como algo sensível. Mas isso tem sido desmistificado, principalmente pela necessidade que a gente tem sentido atualmente de utilizar a tecnologia como ferramenta do nosso trabalho”, explica.

 

Mercado receptivo à inovação

A flexibilização dos atendimentos online garantida pela resolução de 2018 do CFP, aliada à explosão da demanda por atendimento à distância durante a quarentena, precipitou a inserção da psicologia no ambiente virtual. Do outro lado do balcão, o que se encontrou foi um público altamente receptivo a esta modernização. 

“Estou atendendo meus pacientes de forma online desde o início da quarentena e alguns deles já relataram o desejo de continuar com este modelo mesmo após a pandemia”, explica a professora da Escola de Psicologia do IMED, Márcia Wagner, que é psicóloga, pedagoga e terapeuta cognitiva.

 

Márcia Wagner é psicóloga, pedagoga e terapeuta cognitiva

 

Márcia alerta que a adoção do atendimento online abre novas perspectivas de mercado, mas não flexibiliza alguns pressupostos básicos estabelecidos na relação profissional-paciente. Aspectos como o sigilo e o respeito à intimidade e individualidade seguem sendo tratados com o mesmo rigor do atendimento presencial. 

“Não é simplesmente abrir um computador e atender. É preciso ter toda uma série de cuidados. Com certeza, os terapeutas têm que seguir com um cuidado muito grande com as informações destes pacientes”, diz Márcia.

Este modelo de atendimento também exige do terapeuta a habilidade de reproduzir, no ambiente virtual, as condições da sessão presencial, garantindo o atendimento tão assertivo quanto no modelo tradicional. Também é preciso buscar alternativas a práticas que o distanciamento físico não permite no atendimento virtual. 

“Na sessão presencial, eu estou observando toda a linguagem verbal e não verbal do paciente, como suas expressões e reações. Isso se perde um pouco no online. Mas temos que saber utilizar outras questões, outras reações. Para isso, o terapeuta tem que estar muito focado”, complementa.

Márcia alerta também quanto a alguns cuidados que devem ser observados no uso de tecnologias para o atendimento psicológico, como fugir da informalidade comum em ambientes virtuais, inclusive nas formas de divulgação do serviço a ser realizado.

 

Muito além do teleatendimento

Apesar da atenção que o teleatendimento passou a receber em virtude da pandemia, ele está longe de esgotar as possibilidades que as novas tecnologias agregam aos serviços psicológicos. 

Em um país como o Brasil, que conta, por exemplo, com cerca de 19 milhões de pessoas com algum transtorno de ansiedade, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a demanda por soluções e novas ferramentas forma um vasto mercado a ser explorado. Alguns profissionais empreendedores que apostaram neste nicho com antecedência, hoje registram bons resultados.

A psicóloga Ana Carolina Peuker está neste grupo. Ela é CEO da BeeTouch, uma startup criada em 2012. A empresa faz o rastreamento de risco psicológico em ambientes corporativos e, em 2020, cresceu 65%. O carro-chefe da BeeTouch é o AVAX Psi, uma plataforma de avaliação psicológica que permite a integração entre dados de diferentes tipos de testagem. O objetivo é oferecer ao psicólogo uma visão sistêmica das informações, subsidiando a análise dos resultados e a emissão de relatórios e laudos. 

 

A psicóloga Ana Carolina Peuker é CEO da BeeTouch, uma startup criada em 2012

 

Para Ana Carolina, os profissionais devem fugir da ideia de que o teleatendimento é o ápice da inovação em psicologia. Para ela, assim como ocorre em setores com saúde, mercado financeiro e  mobilidade urbana, a psicologia também pode se transformar com a tecnologia aplicada a processos, serviços e metodologias.

“A psicologia precisa ser high tech, sem deixar de ser high touch”, defende Ana Carolina para destacar que a inovação e a tecnologia precisam agregar valor sem sobrepujar o vínculo e a humanização que são a essência do atendimento psicológico. Para a empreendedora, o caminho para aumentar a inserção da psicologia no ambiente digital passa pela adequação da formação acadêmica. “O estudante deve buscar se aproximar de ambientes multidisciplinares e hubs de inovação. O profissional que não se adaptar vai ficar para trás”, alerta.

 

As lições do ambiente corporativo

Se por um lado os profissionais da psicologia clínica, em geral ainda apresentam restrições ao uso de recursos tecnológicos, na psicologia organizacional, já se constata um outro cenário. A necessidade de acompanhar as inovações e a implementação de ferramentas de gestão que vão sendo agregadas ao dia a dia dos ambientes corporativos faz com que os profissionais desta área estejam mais inseridos, mais preparados e muito mais familiarizados com o uso desses recursos. 

Trata-se de uma diversificada gama de aplicações na rotina destes profissionais que atuam nos variados subsistemas das áreas de gestão de pessoas. E vão desde a ferramentas para facilitação e realização de dinâmicas em processos de recrutamento e seleção, a recursos de e-learning aplicados a rotinas de treinamento e desenvolvimento e de educação corporativa, até aos aplicativos de mapeamento de perfil comportamental, sejam eles os mais básicos ou os  mais sofisticados. Há ainda diversas opções de recursos de apoio como as plataformas colaborativas, interfaces de conversação e ferramentas para criação de mapas mentais, por exemplo. 

“Tenho conhecimento de muitas empresas e psicólogos organizacionais que criaram modelos, métodos de trabalho dentro do ambiente virtual, tanto no que compete à questão institucional e organizacional quanto ao que diz respeito à saúde mental do colaborador”, reforça Júlia Protas.

Vale a ressalva de que esta é uma realidade que diz respeito tanto aos psicólogos que atuam no quadro das empresas como aos profissionais que atendem o mercado corporativo em suas consultorias.  

Fisicamente distante, tecnologicamente conectados

Para a psicóloga Magda Longo Rossato, mesmo com a distância física, o atendimento por meio de recursos tecnológicos pode aproximar o psicólogo do paciente, reforçando uma conexão indispensável para o êxito do atendimento. 

“Em uma sessão usando uma plataforma online, o paciente abre a sua casa para o psicólogo. Ao invés de a distância física nos afastar, ela acaba por nos aproximar”, avalia.

 

 Psicóloga Magda Longo Rossato

 

Magda, que segue a linha de terapia sistêmica, passou a atender exclusivamente por meio de plataformas como em 2020, no início da pandemia. Há dois meses, mudou-se para Florianópolis, em Santa Catarina e seguiu atendendo a todos os seus pacientes da cidade gaúcha de forma online.

“Quando mudei, alguns não ficaram confortáveis em manter o atendimento. A estes, sugeri que fizéssemos uma experiência antes de indicá-los a um colega de Passo Fundo. Mas hoje, todos seguem comigo”, afirma.

Formada há cinco anos pela IMED de Passo Fundo, a psicóloga destaca que a adaptação ao atendimento online foi natural. Ela alerta, porém, que é preciso alguns cuidados para garantir o melhor ambiente para as sessões à distância, sem distrações externas. “Quando o paciente pede atendimento pelo WhatsApp, mas não consegue deixar de responder às notificação do aplicativo, por exemplo, temos muita dificuldade”, avalia. 

Por esse motivo, Magda recomenda que os atendimentos aconteçam sempre por aplicativos de reunião online, uma vez que oportunizam um maior envolvimento e foco durante a sessão. A profissional relata que tem usado a ferramenta  Whereby, que recomenda por ser voltada especificamente para atendimentos. 

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