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09/12/2021
Na linha de frente: Enfermeiros cumprem protagonismo no combate à pandemia

Por: Daniel Santos

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Atuação dos profissionais de Enfermagem chamou a atenção da sociedade sobre a importância deste trabalho

 

A primeira infecção provocada pelo vírus SARS-CoV-2 ocorreu no dia 17 de novembro de 2019, de acordo com dados do governo chinês. Tratava-se de uma pessoa de 55 anos da província de Hubei, próximo de Wuhan, foco do primeiro surto.

No Brasil, o primeiro caso foi confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020, em São Paulo. O infectado era um homem de 61 anos, que esteve em viagem na Itália, na região da Lombardia.

De lá pra cá, o número de casos confirmados pelo mundo ultrapassa os 262 milhões e os óbitos ultrapassam 5 milhões, segundo o contador da Universidade Johns Hopkins — que contabiliza os balanços oficiais diários de cada país. O Brasil é o segundo país com mais mortes no período e os Estados Unidos lideram o ranking com mais de 745 mil óbitos.

Diante de um cenário de incertezas, que já vitimou mais de 614 mil de pessoas no Brasil, os profissionais de Enfermagem se depararam com um desafio que, talvez, tenha sido o maior das últimas décadas: a pandemia de Covid-19. 

A situação exigiu respostas dos profissionais, que, ao se colocar na linha de frente do combate ao coronavírus, atraíram atenção em todo o mundo. Afinal, são os enfermeiros que estão em contato direto com os pacientes, tanto os suspeitos quanto os confirmados com a doença. 

Devido também ao protagonismo da Enfermagem nos últimos tempos, a profissão tem passado por uma valorização maior e, assim, figura com destaque entre as carreiras do futuro.

É importante lembrar que o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) reconhece mais de 140 especialidades profissionais da área. Portanto, além do cuidado direto com as pessoas, o profissional de Enfermagem pode gerenciar equipes, orientar grupos de trabalho e atuar como pesquisador ou professor, por exemplo.

Neste conteúdo, vamos trazer os aprendizados e oportunidades que a Covid-19 trouxe para esta carreira. Para isso, conversamos com enfermeiros e estudantes de Enfermagem que atuaram na linha de frente no combate à pandemia.

 

Do medo à coragem 

 

Os profissionais de Enfermagem formam o maior grupo de atuantes na área da saúde no Brasil. Na pandemia de Covid-19, a atuação desses profissionais se torna ainda mais relevante e necessária. 

Desde quando a doença chegou por aqui, enfermeiros em todo o País passaram a se dedicar ainda mais aos plantões. Ao mesmo tempo, muitos se afastaram da própria família para protegê-los, sem deixar de oferecer atenção e cuidados aos pacientes.

Para realmente entender essa situação, continue lendo esse conteúdo e saiba qual é a importância da Enfermagem diante da pandemia.

Enfermeiro, especialista em Emergência, Mestre e Doutor, Márcio Neres trabalha há mais de 20 anos com pacientes de cuidados críticos. Márcio, que atua no Grupo Hospitalar Conceição (GHC), referência para atendimento de pacientes suspeitos ou confirmados para COVID-19 em Porto Alegre, explica que a preparação é constante, porém quando ocorre um evento de tamanha magnitude, como uma pandemia, existem muitas situações novas e não planejadas.

 

Márcio Neres trabalha há mais de 20 anos com pacientes de cuidados críticos e atua no Grupo Hospitalar Conceição (GHC)

 

“O profissional deve estar receptivo para aprender e desenvolver suas habilidades, mesmo numa situação pandêmica. Nunca na história recente dos serviços de saúde, precisou-se tanto da Enfermagem. Os profissionais precisam dar conta de cuidados respiratórios, dos pacientes graves, da elaboração de planos de contingências, da classificação de risco, da gestão dos serviços de emergência, entre outros. É o momento de refletirmos sobre a necessidade de investimento na formação e no desenvolvimento de novos especialistas, além daqueles que já atuam na área”, ressalta.

Na visão de Márcio, a pandemia trouxe muitas mudanças, dentre elas, o uso da máscara, que cobriu os sorrisos. “Hoje, mais do que nunca, precisamos sorrir com os olhos. Mas o sorriso, mesmo que com os olhos, é capaz de melhorar o dia de alguém, confortar aqueles que perderam as pessoas importantes em suas vidas, acolher os que estão longe dos seus, é humanizar a assistência em saúde”, reflete.

A multidimensionalidade e a importância do trabalho do enfermeiro ainda são pouco reconhecidas, afirma Márcio. “ Esse profissional é o gestor do cuidado, é ele que organiza o espaço físico para que todos possam atender, mantém as condições operacionais de trabalho, do dimensionamento de pessoal de enfermagem, dos equipamentos disponíveis e auxilia na gestão da qualidade e segurança do cuidado realizados. Essas características estão relacionadas com a construção processual da identidade e a consciência grupal dos trabalhadores de enfermagem, que muitas pessoas não enxergam”, acrescenta.

A pandemia do coronavírus trouxe também aos profissionais de Enfermagem grandes desafios. As equipes de enfermeiros, no mundo todo, tiveram pouco tempo para incluir novos protocolos e novas ferramentas de tecnologia em seu trabalho. 

Cássia Osolin Cominm foi uma dentre tantos profissionais que atuaram na linha de frente em Passo Fundo - principalmente no início da pandemia. Quando os casos de coronavírus começaram a aparecer no município, era Cassia quem realizava ações de monitoramento na secretaria municipal de saúde junto a vigilância epidemiológica e após, assumiu o cargo de enfermeira no setor de Atenção Básica à Saúde. Por lá, atuou com medidas preventivas, de tratamento e redução de danos associado à assistência das demandas da população que se intensificam mês a mês.  

 

Cássia Osolin Cominm foi uma dentre tantos profissionais que atuaram na linha de frente em Passo Fundo

 

“O enfermeiro, após quase dois anos de pandemia, se mantém em frente às ações, em nível primário, secundário e terciário em saúde. É o profissional que coordena o cuidado, gerencia equipes, por vezes, insuficientes em números e, em diversos momentos, cansadas pelas inúmeras demandas impostas pela doença. O cenário atual é mais ameno, porém as batalhas em busca de quantitativos de população por vacinas é satisfatória, mas estamos sempre alerta aos sinais da doença”, comenta.

Para Cássia, as lacunas do sistema de saúde não permitem que os profissionais estejam prontos para enfrentar uma pandemia.  “A Covid-19 demonstra o potencial e as fragilidades do nosso sistema público e privado. A nossa capacidade de superação individual e em grupo foi um ponto positivo que podemos destacar. São quase dois anos de sobrecarga do sistema de saúde somados ao imediatismo das ações  para combater a doença. (...) O protagonismo do enfermeiro foi evidenciado pelos atos de gratidão da população, fato esse que contribuiu para nos mantermos firmes em frente ao caos”, finaliza.

 

Estudantes na linha de frente

 

Estudante do 5° nível de Enfermagem da IMED no campus Porto Alegre, Maria Denise Hoppe, orgulha-se da profissão que escolheu. Ela comenta que nunca imaginou que, logo no início de sua trajetória acadêmica, teria que trabalhar no combate de uma pandemia. Na Santa Casa de Porto Alegre, hospital que trabalha, ela ganhou da equipe o título de ‘Musa Covid’.

 

Maria Denise Hoppe ( à esquerda) é estudante do 5° nível de Enfermagem da IMED no campus Porto Alegre

 

“Eu trabalho no setor de exames, endoscopia e colonoscopia. Com todas as precauções, eu tive acesso a todos os lugares da ala Covid. Auxiliei o médico na realização de exames nos pacientes, pois eles não poderiam ser deslocados para os procedimentos”, relata.

Denise que já atuava como técnica de enfermagem sonhava em fazer a graduação. “Depois de muitos anos, eu consegui entrar para o curso. Nunca imaginei que poderia ocorrer aulas online. Para mim, isso era coisa de outro mundo’, acrescenta.

Encontrar os colegas pessoalmente na retomada das aulas presenciais, para Denise, foi emocionante. “Teve uma aula que eu chorei. Tenho uma colega que tem sotaque nordestino e eu só ouvia a voz dela pelas aulas online. Quando retomamos e eu ouvi aquela voz inconfundível, me deu uma emoção tão grande. Imagina só, reconhecer uma pessoa somente pela voz”, emociona-se.

Andressa Karine Jacobs, que é estudante do 4° semestre de Enfermagem da IMED em Passo Fundo, atuou no combate à Covid-19, junto com a fiscalização do município, em um trabalho de visitas ao comércio sobre conscientização do uso correto de máscaras. 

“Considero minha participação muito importante, pois pude esclarecer diversas dúvidas das pessoas e, assim, ajudar a população, adquirindo conhecimento que antes eu não possuía. Levamos informações aos estabelecimentos que não estavam adequados e  também participei de capacitações para dar orientações em uma estratégia de saúde do município”, recorda.

Andressa Karine Jacobs é estudante do 4° semestre de Enfermagem da IMED em Passo Fundo

 

Para a estudante, os enfermeiros são profissionais especiais, é como se tivessem uma missão a cumprir.  Ela reforça que o profissional de enfermagem preza pelo cuidado e pelas necessidades básicas humanas e, mesmo em meio ao cenário desgastante e plantões exaustivos, devem continuar firmes no cumprimento dos seus deveres. 

“Ter sido estudante de enfermagem na pandemia foi bem diferente. Muito foi falado sobre essa profissão que ajuda a salvar vidas.  Além disso, também foi desafiador mudar totalmente a rotina e começar a ver todos os professores e colegas por meio da tela do computador. Mas agora, voltando às aulas práticas com os pacientes, tem sido uma experiência extraordinária”, finaliza.

Marcelo Rosa Alves atua como técnico de enfermagem há 15 anos. Aos 44 anos, pai de dois filhos, é estudante do 3° nível de Enfermagem no campus Porto Alegre da IMED. Para ele, o papel dos profissionais de Enfermagem foi fundamental no combate ao coronavírus.

Marcelo Rosa Alves atua como técnico de enfermagem há 15 anos e é estudante do 3° nível de Enfermagem no campus Porto Alegre da IMED.

 

“Eu atuei sete meses com pacientes Covid. O setor em que eu trabalho, na Santa Casa, foi transformado em uma ala para receber as pessoas contaminadas com o coronavírus. Tínhamos muitos pacientes acamados e era necessário fazer a troca de fralda, higiene, banho, curativo, além de atenção total a eles. Esses pacientes se desestabilizam muito rápido, a saturação também era rápida, de 98 caía para 70, e muitas vezes não dava tempo de levar para UTI e já tinha de intubar ali mesmo”, recorda.

Ver os pacientes voltarem para casa após o período de internação motivam o estudante.

“Quando meu setor voltou a ser área de internação, os pacientes tinham alta da UTI. Alguns pacientes chegavam muito debilitados, estavam recebendo alta porém, entristecidos. Nesse momento, eu buscava dar uma palavra de conforto e pedia que eles tentassem ficar felizes, pois eles tiveram Covid e conseguiram superar. Quantas pessoas que não tiveram a mesma oportunidade e morreram”, reflete.

 

“A Enfermagem trabalhou e estudou muito para conseguir dar um cuidado adequado e se cuidar também”, afirma a presidente do Coren-RS

Nessa entrevista, a presidente do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), enfermeira Rosangela Gomes Schneider, ressalta a importância do papel do profissional de Enfermagem frente a situações catastróficas, como uma pandemia.

 

 

Os profissionais de Enfermagem tiveram um importante papel no combate à pandemia de Covid-19. Quais foram os principais desafios enfrentados por esses profissionais?

Os principais desafios foram trabalhar com o desconhecido, sem equipamentos de proteção adequados e sem conhecimento da doença. A Enfermagem trabalhou e estudou muito para conseguir dar um cuidado adequado e se cuidar também. Muitos se contaminaram, adoeceram e mais de 800 colegas deram a vida, literalmente. Tivemos que nos reinventar e mudar a forma de cuidar. Com muito medo de se contaminar e levar o vírus para seus familiares, mas com o compromisso de atender a população, tivemos coragem de seguir enfrentando a Covid-19.

 

O que falta para que os profissionais de Enfermagem possam ser ainda mais reconhecidos?

Acredito que a Enfermagem precisa fazer mais “marketing” do seu trabalho. Somos profissionais essenciais ao cuidado em todos os níveis, do nascer ao morrer, da unidade de saúde mais próxima ao hospital de maior complexidade. Nosso fazer é cuidar de saúde e saúde é o nosso maior bem. Precisamos conquistar nosso piso salarial, nossa jornada de 30 horas e condições dignas de trabalho, isso sim é ser reconhecido.

 

Por trás do profissional, tem o lado humano. Como foi encarar a pandemia?

A pandemia colocou o profissional de Enfermagem na “vitrine”. Trouxe à tona o nosso empenho e dedicação nas 24 horas do dia, onde muitas vezes fomos o único contato humano que o paciente tinha quando em isolamento. Sentimos a dor do paciente por estar só e a do familiar por não poder estar junto ao seu ente querido. Fomos o olhar alentador, os ouvidos que escutaram despedidas não feitas, quem trazia uma palavra de alento, conforte e até de perdão. Fomos quem ficou literalmente ao lado em todas as horas e, com isso, sofremos também. Não é fácil suportar tanta dor, principalmente com sobrecarga de trabalho e condições inadequadas para cuidar. Muitas(os) profissionais da Enfermagem ficaram abaladas(os) psiquicamente, inclusive com risco de suicídio. Mas equipes de saúde mental foram acionadas e tivemos suporte para encarar a pandemia.

 

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Solicito real apoio da população para que contatem seus deputados federais e solicitem o reconhecimento e valor da Enfermagem, pois o Projeto de Lei (PL) 2564/2020 está na Câmara dos Deputados e precisa ser votado. Gostamos de aplausos, mas merecemos reconhecimento na prática. #AprovaPL2564.

 
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